Contornos
ora me moldo, oras me limitam

Passei os últimos dias entre fogueiras, forró, fumaça e raiva. Se bem minha essência sagitariana me faz amar toda e qualquer festa, se bem, como boa nordestina, é impossível não amar São João, mesmo assim, passo essa época oscilando: quero algumas coisas mas precisa mesmo chamar guerra de espadas, fogos altos e fumaça sem controle das 15 fogueiras acessas na minha rua de tradição? precisa mesmo exigir que eu aceite sem reclamar?
A lá, mas na quadrilha tu quer estar né? (disse alguém no meu insta)
Quero, amo quadrilha e quadrilha no interior do nordeste brasileiro é igual a escola de samba de bairro no Rio de Janeiro: ainda é coisa de comunidade, ainda envolve várias gerações, é paixão nível familiar e a diversidade reina cada dia mais nelas.
Mas como vai ter milho assado sem fogueira?
Se fosse só pra assar milho, se não fosse uma competição de ver quem queima mais alto até 5h da manhã…fiz uma fogueirinha com minhas crianças pois estas estavam sem aceitar um São João sem fogueirinha…afinal morávamos no sítio antes…queimamos às 18h por 30 minutos, com todo cuidado de onde a fumaça tava indo.
Vizinho deu risada da gente…a dele começou 23h, terminou 4h da manhã, serviu pra acender fogos!
Ahh os fogos…nem tenho mais nada a comentar. Aliás, nessa cidade de coronéis políticos melhor nem comentar nada…minha família neurodiversa que lute.
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Hoje resolvi contornar umas pinturas antigas…flores que pinto desde o começo do ano num caderninho. Aquarelo flores sem desenhar antes como um exercício de soltar mão do controle…aprendi na arteterapia, aquarelo respirando fundo e assimilando que nem tudo sai do jeito que quero…vou tentando e pinto várias vezes a mesma flor…até o dia que sairá como eu quero ou de um jeito que eu aceite.
Nunca pensei em contornar. Então um dia depois de terminar um quadrinho com muitas flores que tinham no meu antigo jardim minha adolescente passou por mim e soltou “Se você contornar vai ficar mais fácil de entender o que é que você pintou”.
Deixe ela! A mãe que tem as filhas mais críticas (e excelentes artistas) do mundo.
Aff me vi no desafio e um dia peguei uma dessas canetas esferográficas 0.7 mm caríssimas que uma das gêmeas usa pra desenhar (e tem que ser essa e da marca específica também!) e então contornei…que surpresa! Virou outra coisa!
Ficou tão bonito que eu acabei dando de presente. Nem faço arte pra dar pra ninguém, quem ganhou alguma é soturde.
Um tal de um contorno e algo que foi pintado sem molde, sem exemplo, a seco (como aprendi outro dia), ganhou de repente “Sentido”.
Me imaginei a vida sendo essa mesma brincadeira, contorno as artes antigas e acaba que aquele caos aquarelado, aquela ideia bruta, aquela simples lembrança que antes ali existia recebe a camada da razão, recebe a camada da invenção, eram só manchas vermelhas que lembravam rosas, agora é um buquê.
O dia caótico, cheio de improvisos no fim do dia recebe meu contorno narrativo e enquanto narro para o outro adulto da casa a crise de uma das meninas já vou botando camadas e até rindo, de repente moldei a situação que na hora foi de exaustão e a entreguei como mais um dia de aprendizado sobre como lidar com suas crises de raiva.
Acho até que faço muitos contornos na minha vida, escolho eventos, foco no que acho que vale a pena ganhar destaque.
Mas e quando são outros a inventar contornos no caos? e quando é a sociedade a dar “sentido” a comportamentos coletivos? e quando é a lei que decide o que vale a pena ficar dentro da linha legal?
Aí meu contorno esbarra no limite. Odeio me sentir em caixinhas, em quadrados inventados, ser margem quando quero estar mesmo é “à deriva”.
perdida no rio correndo perigo de cair cachoeira abaixo.
Tudo bem eu penso…há de ser necessário alguns limites.
Duro mesmo é você se espremer nos dos outros e ainda ter vizinho estourando fogos às 4 da manhã, assustando as crianças, o cachorro e os gatos.
Mas enfim,
Ando aleatória de tudo.
Avisados sempre estiveram vocês que ainda me leem.
Mas finalmente é inverno e o casulo chama e eu preciso atender. Volto já.
Com amor,
Lila








Amei a ideia da aquarela pra abrir mão do controle. Ler você é sempre um presente a parte. ❤️
Gostei muito dessa metáfora com os contornos!
Acho que a resposta cai no chavão clássico: a sua liberdade só é liberdade se não oprime a dos outros. Queria acreditar que tudo poderia se resolver com uma colher de sopa de bom senso, mas este ingrediente anda em falta...
As aquarelas ficaram ainda mais bonitas assim, adoro esse traço de caneta fininha 😍